Medo de sair de casa: quando a ansiedade limita sua vida

Sentir medo de sair de casa pode parecer, à primeira vista, algo passageiro — um incômodo pontual, talvez uma fase de cansaço emocional. Mas e quando esse receio começa a se repetir com frequência? Quando até as tarefas mais simples, como ir ao mercado ou buscar os filhos na escola, passam a ser evitadas por …

O medo de sair de casa

Sentir medo de sair de casa pode parecer, à primeira vista, algo passageiro — um incômodo pontual, talvez uma fase de cansaço emocional. Mas e quando esse receio começa a se repetir com frequência? Quando até as tarefas mais simples, como ir ao mercado ou buscar os filhos na escola, passam a ser evitadas por conta da ansiedade?

Para muitas pessoas, esse medo ultrapassa o desconforto. Ele cresce em silêncio, se infiltra nos compromissos do dia a dia e, aos poucos, começa a limitar a liberdade de ir e vir. Em certos casos, ele tem nome: agorafobia. E embora ainda seja pouco falado, afeta cerca de 0,9% a 2,4% da população adulta mundial.

Se você já se perguntou por que sente tanto medo de sair ou se nota que está evitando situações por não se sentir segura fora de casa, este texto pode te ajudar a entender o que está por trás desse turbilhão de emoções. 

O que está por trás do medo de sair de casa?

Em muitos casos, o que parece apenas uma “frescura” ou uma característica da personalidade é, na verdade, um quadro chamado agorafobia: um transtorno de ansiedade que pode restringir profundamente a vida de quem o enfrenta.

 O que é agorafobia e como ela afeta a vida cotidiana

A agorafobia é caracterizada pelo medo de estar em lugares ou situações onde escapar seria difícil ou onde a ajuda não estaria prontamente disponível, caso a pessoa tenha uma crise de ansiedade, pânico ou outro mal-estar intenso.

Esse medo não se limita a lugares abertos, como o nome sugere. Ele também pode envolver:

  • Espaços fechados (como lojas e elevadores);
  • Transportes públicos;
  • Filas;
  • Multidões;
  • Até o simples ato de sair sozinho de casa.

Muitas pessoas com agorafobia sentem que só conseguem enfrentar esses contextos se estiverem acompanhadas de alguém em quem confiam, e mesmo assim, com sofrimento.

Com o tempo, é comum que a lista de lugares evitados cresça. Ir ao mercado, trabalhar presencialmente, viajar ou comparecer a compromissos sociais se torna cada vez mais difícil, o que pode gerar um ciclo de frustração, vergonha e autocrítica.

“Tenho medo de sair de casa e passar mal. O que pode ser?”

Quando você sente que pode desmaiar, ter uma crise ou perder o controle ao sair, é o seu sistema de alerta agindo como se estivesse diante de uma ameaça real — mesmo que, racionalmente, você saiba que está segura.

Isso se torna ainda mais comum em pessoas com problemas que podem gerar certo constrangimento em público, como situações de incontinência urinária, por exemplo.

Essa resposta exagerada é típica da agorafobia. O medo de passar mal “do lado de fora” faz com que o corpo entre em estado de hipervigilância. A mente imagina cenários catastróficos, e qualquer sintoma leve (como tontura, taquicardia ou calor) acaba amplificando ainda mais a ansiedade.

Esses sintomas são comuns e tratáveis, e sentir isso não significa que você está “perdendo o controle” ou “ficando louco”. Significa apenas que seu corpo está tentando te proteger, mas está ativando o alarme na hora errada.

O que é a síndrome do confinamento?

Embora não seja um diagnóstico oficial, a chamada “síndrome do confinamento” é um termo usado para descrever os casos mais graves de agorafobia, em que você praticamente não consegue mais sair de casa.

Nesse estágio, a casa se torna o único espaço onde ela se sente relativamente segura. Fora dali, tudo parece ameaçador: ruas, pessoas, barulhos, imprevistos. O simples pensamento de atravessar a porta já dispara sintomas físicos e emocionais intensos.

Em alguns casos, a pessoa depende de familiares até mesmo para tarefas simples, como ir à farmácia ou ao banco.

Esse confinamento involuntário pode durar meses ou anos, se não for tratado. Mas com acompanhamento adequado, é possível reconstruir aos poucos essa autonomia e sair do ciclo de evitação.

Sintomas que indicam que o medo de sair de casa passou do limite

Sintomas físicos mais comuns

O corpo não diferencia o perigo real do perigo imaginado. Ele apenas responde. E na agorafobia, essa resposta é intensa. Muitos dos sintomas físicos que surgem são os mesmos de uma crise de pânico e acontecem mesmo que você não esteja em risco:

  • Coração acelerado, como se algo fosse acontecer a qualquer momento;
  • Tontura, desequilíbrio ou visão embaçada;
  • Falta de ar, como se o ar “não entrasse direito”;
  • Sensação de desmaio, mesmo em repouso;
  • Sudorese intensa, mãos frias, respiração rápida;
  • Tensão muscular, rigidez nos ombros ou nas costas;
  • Desconforto gástrico, náusea, dor no estômago ou urgência para ir ao banheiro.

Esses sintomas aparecem em situações temidas (ou até só de pensar nelas) e reforçam a ideia de que “algo está errado com meu corpo”. É por isso que muita gente com agorafobia procura, primeiro, um clínico ou cardiologista, e não um psicólogo ou psiquiatra.

Sinais emocionais e cognitivos

Além da resposta física, o medo de sair de casa também afeta profundamente o campo emocional. A ansiedade se instala com força, muitas vezes antes mesmo da situação acontecer.

Os pensamentos que acompanham essas crises costumam seguir um padrão:

  • “E se eu desmaiar na rua?”
  • “E se eu tiver uma crise no meio do mercado e ninguém me ajudar?”
  • “E se pensarem que estou louco?”

A mente entra em modo de alerta total, antecipando catástrofes e tentando se proteger a qualquer custo. Isso gera:

  • Medo intenso de perder o controle em público;
  • Sensação de estar aprisionado ou sem saída;
  • Pânico ao pensar em ficar longe de casa ou de alguém de confiança;
  • Episódios de desrealização (o mundo parece irreal) ou despersonalização (a pessoa sente que está fora do próprio corpo).

Esses sintomas cognitivos são respostas a um estado de sofrimento emocional.

Comportamentos de esquiva

Para evitar sentir tudo isso, você começa a adaptar sua vida ao medo. Esse processo é silencioso, gradual e perigoso.

No início, a evitação pode parecer estratégica:

“Hoje não vou ao shopping, está muito cheio.”
“Prefiro pedir delivery, assim não preciso sair.”

Com o tempo, no entanto, a lista de lugares evitados cresce. E o que antes parecia controle, vira limitação da liberdade.

Entre os comportamentos mais comuns, estão:

  • Evitar lugares públicos, especialmente os que envolvem aglomerações, filas ou saídas limitadas (como shoppings, supermercados, cinemas);
  • Sair de casa apenas com companhia, geralmente alguém de confiança;
  • Estabelecer rotinas rígidas, sempre frequentando os mesmos lugares, nos mesmos horários, para evitar imprevistos;
  • Carregar “objetos de segurança”, como remédios, garrafa d’água, documentos ou celulares já com números de emergência;
  • Recusar convites, compromissos e mudanças por medo de “não dar conta”.

Essas adaptações acabam reforçando o transtorno. A curto prazo, aliviam a ansiedade. Mas, a longo prazo, alimentam a ideia de que o mundo lá fora é perigoso e que você realmente não conseguiria lidar com uma crise sozinho.

Conheça os sintomas do medo de sair de casa

O que leva alguém a desenvolver o medo de sair de casa?

Predisposição genética e fatores biológicos

A agorafobia tem um forte componente hereditário, com cerca de 61% de herdabilidade. Ou seja, se você tem parentes próximos com histórico de ansiedade, pânico ou fobias, suas chances de desenvolver algo semelhante aumentam.

Essa predisposição não significa que o transtorno vá se manifestar obrigatoriamente, mas mostra que o organismo já carrega uma certa sensibilidade a situações de estresse ou medo. Além disso, algumas pessoas apresentam alterações em regiões cerebrais ligadas ao processamento do medo, do equilíbrio e da percepção de segurança.

Outro ponto que vem sendo estudado é a ligação entre agorafobia e o sistema vestibular, responsável pela nossa sensação de equilíbrio. Em alguns casos, pessoas com agorafobia relatam desconforto acentuado em locais muito amplos ou movimentados, como se o corpo perdesse a referência espacial, o que contribui para a sensação de desorientação e insegurança nesses ambientes.

Experiências traumáticas ou situações inesperadas

Muitos quadros de agorafobia começam depois de uma vivência marcante. Pode ter sido um ataque de pânico que aconteceu em público, um desmaio fora de casa, um assalto, um acidente, ou até mesmo uma crise de ansiedade durante um compromisso importante.

A partir dali, o cérebro passa a associar aquele tipo de ambiente ou situação a uma sensação de perigo real.

É como se o corpo entendesse que, se aconteceu uma vez, as chances de acontecer de novo são grandes. E, para evitar o desconforto vivido naquela primeira vez, você começa a evitar contextos semelhantes. Ao invés de trabalhar o medo, tenta fugir dele, e essa estratégia, apesar de parecer funcional no início, acaba reforçando o ciclo do pânico.

Vale lembrar que nem sempre o evento é “grave” aos olhos de quem está de fora. Às vezes, uma discussão, uma notícia difícil ou um mal-estar físico em um lugar lotado já bastam para disparar esse mecanismo. O que importa não é o que aconteceu, mas como aquilo foi vivido emocionalmente.

Com o tempo, o medo deixa de estar ligado só ao evento original e começa a se expandir: outros lugares, outras pessoas, outras situações começam a parecer perigosos também. É assim que, silenciosamente, o mundo vai ficando cada vez menor.

Ambiente, aprendizado e estresse crônico

Nem sempre é preciso um trauma evidente para que o medo de sair de casa se desenvolva. Em muitos casos, o que molda essa percepção de insegurança são os aprendizados emocionais ao longo da vida.

Crescer em um ambiente onde o mundo externo é constantemente apresentado como perigoso — onde sair de casa gera preocupação, onde tudo parece uma ameaça — pode ensinar que o melhor a fazer é se proteger evitando.

Famílias com histórico de ansiedade, superproteção ou excesso de vigilância costumam, sem querer, reforçar a ideia de que estar fora de casa é sinônimo de risco. Frases como “é melhor não ir”, “e se acontecer alguma coisa?”, “fica mais seguro aqui” podem parecer cuidados inocentes, mas têm um efeito acumulativo.

Além disso, viver sob estresse constante, sem espaço para descanso emocional, vai fragilizando o sistema nervoso. Quando o corpo está sempre em alerta — por cobranças, sobrecarga, falta de apoio ou medo do julgamento — ele se torna mais suscetível a desenvolver reações exageradas diante de situações comuns.

Nesse cenário, o medo não surge de um único evento, mas do acúmulo de pequenas experiências que ensinaram o cérebro a reagir com alarme. E o resultado, muitas vezes, é a crença de que sair, circular ou se expor é mais perigoso do que realmente é.

“Porque não sinto mais vontade de sair de casa?”

Quando o cérebro aprende que sair de casa pode gerar desconforto, insegurança ou até sintomas físicos intensos, ele começa a evitar automaticamente essas situações. A casa, mesmo com todas as suas limitações, passa a representar um lugar onde você sente algum controle. E tudo que está fora dela ganha um contorno ameaçador, mesmo sem motivo concreto.

Com o tempo, o medo se disfarça de preferência. Mas por trás da aparente indiferença ao mundo, existe uma história de ansiedade acumulada, frustração com o próprio corpo, e a sensação de que ninguém entenderia o que está acontecendo.

Por isso, se você sente que está cada vez mais “acomodado” dentro de casa, vale olhar para esse movimento com mais cuidado. Às vezes, a vontade de sair não desaparece: ela só está sufocada pelo medo.

Como saber se você está vivendo com agorafobia?

O diagnóstico de agorafobia é clínico, ou seja, feito com base no seu relato e na minha avaliação, enquanto psiquiatra. Para isso, utilizo os critérios definidos por manuais como o DSM-5, a principal referência internacional para classificação de transtornos mentais.

Segundo esses critérios, a agorafobia envolve medo ou ansiedade intensa diante de, pelo menos, duas das situações abaixo:

  • Usar transporte público (ônibus, metrô, avião);
  • Estar em locais abertos (praças, estacionamentos, pontes);
  • Estar em locais fechados (teatros, lojas, elevadores);
  • Ficar em filas ou no meio de multidões;
  • Sair de casa sozinho.

Essas situações costumam ser evitadas ativamente, ou só são enfrentadas com a presença de alguém de confiança. Em alguns casos, você até consegue passar por elas sozinho, mas com sofrimento intenso, muito acima do que seria esperado para o contexto.

Além disso, para fechar o diagnóstico, o medo precisa:

  • Estar presente há pelo menos seis meses;
  • Ser desproporcional ao perigo real daquela situação;
  • Interferir significativamente na rotina, nos relacionamentos ou no trabalho;
  • Não ser explicado por outro transtorno (como fobia social ou ansiedade de separação).

Esses critérios existem para garantir que o diagnóstico seja preciso e para que o tratamento seja adequado. Mas é importante lembrar: não é necessário se encaixar em todos os itens para procurar ajuda

Diferença entre agorafobia, fobia social, pânico e claustrofobia

Quando falamos em medo, ansiedade e evitação, é comum que os nomes se confundam — e que quem está vivendo o sofrimento não saiba exatamente com o que está lidando. Agorafobia, fobia social, transtorno do pânico, claustrofobia… todos esses quadros têm pontos em comum, mas envolvem gatilhos e dinâmicas diferentes.

Vamos às principais diferenças:

  • Agorafobia é o medo de estar em lugares ou situações dos quais seria difícil sair ou receber ajuda caso algo dê errado. O foco do medo está na possibilidade de perder o controle em público, seja desmaiar, ter uma crise, passar mal ou não conseguir escapar. Esse medo pode surgir com ou sem histórico de pânico.
  • Fobia social (ou ansiedade social) envolve o medo intenso de ser julgado, observado ou humilhado em situações sociais. Aqui, o foco não é o lugar, mas a exposição ao olhar do outro. A pessoa teme parecer inadequada, gaguejar, corar, suar, ou simplesmente ser percebida como “estranha”.
  • Transtorno do pânico é caracterizado por ataques súbitos de ansiedade intensa, que surgem do nada, muitas vezes sem motivo aparente. Esses ataques podem ocorrer em qualquer lugar, inclusive dentro de casa. Em alguns casos, o medo de ter um novo ataque em público contribui para o desenvolvimento da agorafobia.
  • Claustrofobia é uma fobia específica, ligada ao medo de estar em ambientes fechados e confinados, como elevadores, túneis ou salas sem janelas. Embora algumas situações se sobreponham, a claustrofobia é mais restrita e não envolve, por exemplo, medo de espaços abertos ou de multidões.

Saber diferenciar esses quadros ajuda a entender o que está por trás do medo e, principalmente, qual caminho seguir no tratamento. Nem todo desconforto social é fobia social. Nem toda crise de pânico é agorafobia. Por isso, contar com um profissional faz diferença na hora de avaliar a história completa por trás dos seus sintomas.

Medo de sair de casa e morrer: é comum?

Sim, é muito mais comum do que se fala.

Essa sensação pode parecer extrema, mas é descrita com frequência por quem vive com agorafobia ou transtornos de ansiedade relacionados. 

Quando você já passou por uma crise intensa fora de casa, o cérebro registra aquele episódio como uma ameaça real. E toda vez que você pensa em sair novamente, o corpo reage como se estivesse prestes a reviver aquilo — mesmo que o risco não exista mais.

É por isso que a ideia de sair pode vir acompanhada de palpitações, falta de ar, tontura, formigamento e, com isso, a sensação de que algo muito grave vai acontecer.

É o que se chama de medo catastrófico — um tipo de pensamento que se instala quando o corpo entra em alerta máximo. O raciocínio lógico perde espaço, e a mente começa a prever o pior: 

  • “vou desmaiar e ninguém vai me socorrer”
  • “vou morrer no meio da rua e ninguém vai saber quem eu sou”
  • “vou ter um ataque e não vou conseguir pedir ajuda”

Essa experiência é assustadora, sim, mas não significa que o perigo é real. O medo de morrer fora de casa não é um sinal de que você está prestes a morrer, mas de que está em sofrimento psíquico. 

Entenda a diferença entre o medo de sair de casa e outros transtornos

Como superar o medo de sair de casa?

Psicoterapia (com foco em TCC)

A psicoterapia é considerada o caminho mais eficaz para tratar agorafobia e, dentro dela, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem com mais evidência científica.

Ela funciona como um mapa: ajuda a entender por que o medo surgiu, como ele se mantém e quais estratégias podem ser aplicadas para desmontar, pouco a pouco, esse ciclo de sofrimento.

A TCC atua em duas frentes principais:

  • Identificação e reestruturação de pensamentos disfuncionais: a TCC ensina a reconhecer esses padrões, questioná-los e substituí-los por interpretações mais realistas e seguras.
  • Exposição gradual às situações evitadas: um dos pontos centrais da terapia é ajudar a pessoa a enfrentar, de forma planejada e progressiva, os contextos que causam medo. Isso pode significar, por exemplo, começar imaginando a situação temida, depois caminhar até a esquina, até que sair sozinha para um mercado se torne possível de novo.

A TCC também pode incluir técnicas de respiração, treinamento de enfrentamento, exercícios de visualização e outras estratégias adaptadas ao seu estilo de vida. Em muitos casos, os primeiros encontros já são suficientes para entender o funcionamento da ansiedade e começar a recuperar a autonomia.

Medicamentos (quando indicados)

Em alguns casos, o tratamento da agorafobia pode ser potencializado com o uso de medicação, especialmente quando os sintomas estão muito intensos ou quando você se sente travado demais para iniciar a psicoterapia sozinho.

Os medicamentos mais utilizados nesse contexto são os antidepressivos com ação ansiolítica, que atuam regulando os neurotransmissores envolvidos nas respostas de medo e alerta exagerado. Eles ajudam a reduzir a sensibilidade do sistema nervoso, diminuindo a frequência e a intensidade das crises.

Em algumas situações específicas, também podemos usar ansiolíticos de curta duração para ajudar nos momentos mais desafiadores — como uma primeira saída sozinha ou uma consulta presencial. Mas, por segurança, esse tipo de medicação não deve ser usada por conta própria, nem por longos períodos, já que pode gerar tolerância e dependência.

O mais importante é lembrar que cada organismo responde de forma diferente. Por isso, a prescrição deve sempre ser feita após uma avaliação cuidadosa. Vou considerar sua história, seus sintomas, seu estilo de vida e seu nível de desconforto para montar um plano que faça sentido para você.

A combinação entre psicoterapia e medicação costuma trazer resultados mais consistentes e duradouros, especialmente para quem está lidando com agorafobia há muito tempo ou sente que já tentou enfrentar o medo, mas travou pelo caminho.

Técnicas complementares e estilo de vida

Além da psicoterapia e da medicação, existem recursos que ajudam a estabilizar o corpo e a mente no dia a dia e que podem fazer diferença na forma como você lida com a ansiedade fora de casa.

Essas estratégias não substituem o tratamento, mas funcionam como apoio importante para manter os avanços e fortalecer sua autoconfiança ao longo do processo:

  • Exercícios de respiração consciente: especialmente a respiração diafragmática, que ensina o corpo a sair do estado de alerta e voltar ao ritmo natural, reduzindo os sintomas físicos de ansiedade.
  • Mindfulness e técnicas de presença: aprender a observar os próprios pensamentos sem se prender a eles, identificando o que é fato e o que é projeção do medo.
  • Relaxamento muscular progressivo: para liberar a tensão acumulada no corpo, principalmente nas regiões que mais sofrem com o estresse (pescoço, ombros, mandíbula).
  • Sono e alimentação equilibrados: manter uma rotina básica de autocuidado impacta diretamente o funcionamento do sistema nervoso. Dormir mal ou se alimentar de forma irregular pode aumentar a vulnerabilidade emocional.
  • Redução do consumo de álcool, cafeína e nicotina: essas substâncias interferem nos níveis de ansiedade e, em algumas pessoas, funcionam como gatilhos para as crises.
  • Movimento regular: não precisa ser uma rotina pesada de academia. Uma caminhada leve, alongamentos diários ou dança em casa já podem ajudar a regular o humor e melhorar a disposição.

Como começar a recuperar sua liberdade, mesmo com medo

Voltar a sair de casa com tranquilidade não acontece de um dia para o outro. especialmente quando o medo já criou raízes, e a ansiedade parece estar sempre à espreita. É natural querer um caminho rápido, uma fórmula certa, uma garantia de que tudo vai dar certo. Mas no tratamento da agorafobia, o que funciona mesmo é o avanço gradual, com apoio e autocompaixão.

Como controlar a ansiedade para sair de casa?

Uma das maiores dificuldades de quem convive com agorafobia não é apenas o momento de sair, mas a ansiedade que começa muito antes, só de imaginar a situação. Esse medo antecipatório ativa o corpo como se o perigo já estivesse acontecendo, o que torna ainda mais difícil dar o primeiro passo.

A boa notícia é que existem técnicas que ajudam a regular essa resposta e a tornar a saída menos assustadora. Nenhuma delas funciona como mágica, mas todas têm um papel importante na construção de uma sensação de segurança:

  • Respiração diafragmática (ou abdominal): Durante a ansiedade, é comum respirar de forma superficial e rápida, o que pode causar tontura, aperto no peito e sensação de falta de ar. A respiração diafragmática ajuda a desacelerar o corpo. Inspire profundamente pelo nariz, enchendo a barriga (não o peito), e expire lentamente pela boca. Faça isso por alguns minutos até sentir o ritmo voltar ao normal.
  • Técnica do grounding (ou ancoragem sensorial): Quando a mente está tomada pelo medo, ancorar-se no presente ajuda a quebrar o ciclo de pensamentos catastróficos. Um exercício simples: observe 5 coisas que você pode ver, 4 que pode tocar, 3 que pode ouvir, 2 que pode cheirar e 1 que pode saborear. Essa prática ativa os sentidos e ajuda a sair da espiral de pânico.
  • Preparação emocional e planejamento gradual: Antes de sair, escolha um destino conhecido, de fácil acesso e onde você se sinta minimamente confortável. Estabeleça um objetivo claro: “vou até a padaria da esquina e volto”. Ter um plano reduz a sensação de imprevisibilidade, e cada saída bem-sucedida fortalece a autoconfiança para a próxima.
  • Evite se pressionar a “se sentir bem”: Aceitar que a ansiedade pode surgir (e que você consegue lidar com ela mesmo assim) é mais eficaz do que tentar evitá-la a qualquer custo. A ideia não é sair sem sentir nada, mas sim perceber que é possível agir apesar do desconforto.

Lembre-se: controlar a ansiedade não significa eliminá-la. Significa criar espaço interno para agir com mais liberdade, mesmo quando o medo aparece.

Como perder o medo de sair de casa?

Perder o medo de sair de casa é um processo de reconstrução, feito de passos pequenos, experiências controladas e vitórias discretas que, juntas, transformam a forma como o cérebro interpreta o mundo lá fora. Algumas estratégias que costumam ajudar:

  • Crie uma hierarquia de enfrentamento: Liste os lugares ou situações que hoje causam medo, organizando do menos desafiador ao mais difícil. Pode começar por andar até a portaria, depois a esquina, depois dar a volta no quarteirão. O segredo está em não começar pelo topo da montanha, mas por degraus baixos e seguros.
  • Associe a saída a um propósito concreto: Sair por “obrigação” pode aumentar a tensão. Mas quando a saída tem um objetivo que você valoriza — buscar um café que gosta, encontrar alguém de confiança, visitar um lugar querido — ela deixa de ser só uma prova de resistência.
  • Celebre cada avanço, por menor que pareça: Ir até a calçada, entrar sozinha em um lugar que você evitava, passar mais tempo fora sem desconforto, tudo isso conta. Anotar esses progressos ajuda a visualizar a evolução, especialmente nos dias em que o medo parece querer voltar.
  • Não se compare com os outros, nem com versões antigas de você mesmo: Talvez você já tenha viajado sozinho, feito apresentações em público, trabalhado fora todos os dias. Isso não significa que você “regrediu”. Significa que agora está enfrentando algo novo e fazendo isso com coragem.

Perder o medo não é esquecer que ele existe. É perceber que você não está mais refém dele.

A solidão que a agorafobia provoca

Se o medo de sair de casa tem dominado a sua vida…

O medo de sair de casa não define quem você é. Ele é um sintoma, uma resposta emocional que se formou em algum ponto da sua história, talvez para te proteger, talvez porque foi o único recurso que o corpo encontrou. Mas isso não significa que ele precisa continuar ditando os seus limites.

Nem sempre é fácil explicar esse medo para os outros. Muitas pessoas ouvem frases como “é só sair”, “você está exagerando”, ou até “todo mundo sente isso de vez em quando”. Comentários assim, mesmo que bem-intencionados, costumam gerar mais silêncio do que apoio. E é nesse silêncio que o sofrimento se aprofunda.

Mas você não precisa se justificar para ser acolhido. O que você sente é legítimo. E buscar ajuda é um ato de responsabilidade com a sua saúde emocional.

Na prática clínica, o acolhimento começa pelo reconhecimento da sua história. Cada pessoa tem um ponto de partida, e o meu papel é caminhar ao seu lado, oferecendo escuta, técnica e segurança emocional para que você possa retomar o ritmo no seu tempo.

Você não está sozinho. Existe um espaço possível onde o medo não precisa mandar em tudo, e ele começa a partir de uma escuta verdadeira.

O tratamento para agorafobia é possível, e ele começa a partir do entendimento da sua história. Aqui, você encontra um espaço seguro para falar sobre o que sente.

Atendo de forma presencial, no centro de Curitiba, e também online — o que pode ser especialmente útil se sair de casa ainda parece difícil. O importante é começar de algum ponto. Às vezes, esse ponto é uma conversa. 

Se você sente que está na hora de superar o medo de sair de casa, agende uma consulta comigo e vamos conversar.

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Dra. Priscila Ruwer

Dra. Priscila Ruwer

Sou médica psiquiatra em Curitiba, formada pela Universidade Federal de Goiás, com residência médica em Psiquiatria e especialização em Atenção Básica pela UFSC. Penso na psiquiatria não só como um conjunto de técnicas da medicina, mas como uma prática centrada na escuta ativa e cuidado individualizado. Atendo em consultório no centro de Curitiba e também realizo consultas online, acompanhando casos de ansiedade, depressão, TDAH, transtornos de humor e outras condições que precisam de atenção especializada. Meu objetivo é construir, junto com você, caminhos para recuperar sua qualidade de vida.

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