Entender como ajudar uma pessoa viciada em jogos de azar é uma das maiores angústias para quem convive com essa realidade. O vício em jogos, que chamamos na medicina de ludopatia, é uma condição de saúde mental grave, e seu impacto vai muito além da pessoa que joga, atingindo toda a família. 25,9% dos brasileiros …
Entender como ajudar uma pessoa viciada em jogos de azar é uma das maiores angústias para quem convive com essa realidade. O vício em jogos, que chamamos na medicina de ludopatia, é uma condição de saúde mental grave, e seu impacto vai muito além da pessoa que joga, atingindo toda a família.
25,9% dos brasileiros já apostaram alguma vez na vida, segundo o Ministério da Saúde, um dado preocupante que demonstra a relevância e a dimensão desse problema em nossa sociedade. É uma situação muito desafiadora, mas existem formas de sair dela.
Quero te ajudar a ter mais clareza sobre o problema e, principalmente, te equipar com informações confiáveis para agir. Você irá compreender a doença, reconhecer os sinais e entender como construir um suporte para ajudar quem você ama. A realidade pode ser dura, mas nenhuma situação é um beco sem saída.
Sumário
ToggleO que fazer para ajudar uma pessoa viciada em jogos de azar?
A sensação de caos é real, e é compreensível. Ver alguém que amamos se perder em um comportamento que afeta sua vida financeira, emocional e social é desesperador. No entanto, mesmo diante de um cenário tão desafiador, você pode fazer a diferença com ações pequenas e bem direcionadas.
A ludopatia é comparável a uma dependência química, como o alcoolismo. É uma doença crônica e tratável, mas que exige acompanhamento. Por ser uma doença, a pessoa precisa de ajuda profissional, e é aí que seu apoio se torna fundamental.
A intervenção informada e firme, mas sem confrontos agressivos, costuma ser o primeiro passo para a mudança. Sabemos que a busca por tratamento ainda é baixa: a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que apenas 0,14% das pessoas com transtorno do jogo chegam a buscar tratamento em países desenvolvidos, o que indica fortes barreiras que podemos ajudar a derrubar.
7 ações que podem ajudar quem você ama a superar o vício:
- Pare de dar dinheiro ou cobrir dívidas: Sei como é doloroso, mas para que a pessoa perceba a gravidade do problema, ela precisa sentir as consequências. Não financiar o vício é um limite crucial que precisa ser mantido.
- Escolha uma pessoa para conversar: Para evitar que a pessoa viciada sinta-se acuada, como se estivesse em um “julgamento familiar”, eleja um único porta-voz na família para centralizar as conversas e decisões. Isso reduz a pressão e torna o diálogo mais focado.
- Combine limites de segurança: Estabeleça de forma muito clara o que é aceitável e o que não é. Pode ser um combinado como “sem apostas dentro de casa” ou “o dinheiro da família não será usado para jogos”. Pense em instalar filtros e softwares que bloqueiam sites de jogo.
- Organize informações concretas: Reúna evidências, como datas, valores de dívidas ou capturas de tela dos gastos. Assim, você tem maior clareza e uma base sólida nas conversas, mostrando a dimensão do problema, sem usar isso para expor ou humilhar. Muitas vezes, quem enfrenta um vício não tem noção das consequências que a doença está gerando.
- Marque um horário específico para o diálogo: Evite abordar o assunto de forma reativa, no calor de uma discussão. Escolha um momento tranquilo e apropriado para expressar sua preocupação, sem agressividade.
- Defina um próximo passo realista: Em vez de exigir uma mudança imediata e radical, sugira uma ação concreta e alcançável. Pode ser agendar uma primeira consulta com um psicólogo ou psiquiatra, buscar informações sobre um grupo de apoio como os Jogadores Anônimos, ou pesquisar programas de autoexclusão de sites de apostas.
- Busque ajuda imediata se houver risco: Se a situação envolve riscos mais sérios, como ameaças de suicídio, violência ou dívidas com pessoas perigosas, priorize a segurança. Não hesite em procurar um pronto-socorro psiquiátrico ou serviços de emergência.
O que você não deve fazer ao ajudar uma pessoa com vício em jogos de azar:
Tão importante quanto saber o que fazer, é saber o que evitar. Humilhar, fazer ironias, proferir ameaças vazias ou usar a famigerada “última chance” são atitudes que só pioram a situação. Isso porque, em vez de ajudar, essas ações aumentam a vergonha e o sentimento de culpa, levando a pessoa a se isolar ainda mais e a esconder o vício.
Para ajudar de verdade, precisamos primeiro entender o que é ludopatia e por que ela não se resolve só com “força de vontade”.

Vício em jogos de azar é doença? Conheça a ludopatia
O vício em jogos de azar não é uma falha moral ou uma questão de falta de caráter. Pelo contrário, é uma doença reconhecida oficialmente. Vamos desmistificar essa ideia, porque a culpa só afasta a pessoa da ajuda que ela tanto precisa.
A ludopatia, ou transtorno do jogo, é uma condição de saúde mental grave. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a classifica em sua lista internacional de doenças (CID-11) como um transtorno devido a comportamentos aditivos.
Assim como o alcoolismo, a ludopatia é crônica e incurável, mas tratável e passível de controle com o acompanhamento adequado.
O que caracteriza essa doença:
- Perda de controle: A pessoa simplesmente não consegue limitar o tempo ou o dinheiro gasto com o jogo, mesmo que se esforce para isso. É como se uma força maior a impulsionasse a continuar.
- Prioridade sobre outras áreas da vida: O jogo se torna o foco principal, substituindo responsabilidades familiares, o trabalho, os estudos ou outras atividades que antes eram importantes.
- Continuidade, apesar dos problemas: Mesmo percebendo os prejuízos enormes — financeiros, nas relações, na saúde —, a pessoa continua jogando. É um ciclo difícil de quebrar.
É importante diferenciar que “gostar de jogar” é uma coisa, “ter o transtorno” é outra. Quem gosta de jogar consegue parar quando quer e não sofre prejuízos em outras áreas. Na ludopatia, a perda de controle e o prejuízo funcional são marcantes.
Por que o diagnóstico importa para quem está tentando ajudar a pessoa viciada em jogos de azar?
Saber que a ludopatia é uma doença muda toda a sua abordagem. Em vez de acusações, você passa a oferecer apoio. Em vez de punição, pensa em tratamento e proteção. O diagnóstico transforma o tipo de conversa, que se baseia em fatos sobre a doença e não em julgamentos de caráter. Muda os limites, que se tornam uma forma de cuidado, não de castigo. E, claro, direciona para a busca por uma ajuda especializada e eficaz.
Sintomas de uma pessoa viciada em jogos de azar: quais sinais aparecem primeiro?
Os sinais mais típicos incluem a mentira constante sobre o tempo e o dinheiro gastos, uma necessidade quase obsessiva de “correr atrás do prejuízo” (jogando mais para tentar recuperar o que se perdeu), o ato de apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma emoção inicial (tolerância), e a incapacidade de parar, mesmo quando os prejuízos são evidentes e a vida começa a desmoronar.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) define o transtorno do jogo por um conjunto de critérios, e um diagnóstico geralmente é feito se quatro ou mais desses critérios estiverem presentes em um período de 12 meses.
Sinais emocionais e comportamentais
Fique de olho em mudanças na pessoa que podem indicar que o jogo se tornou um problema:
- Irritabilidade e ansiedade: A pessoa fica tensa, nervosa, e reage mal quando o assunto “dinheiro” ou “tempo gasto” aparece. Sentimentos de culpa e vergonha, comuns após perdas, levam a ansiedade e depressão.
- Insônia e isolamento: Há uma clara alteração no sono, e um afastamento gradual dos amigos, da família e das atividades que antes eram prazerosas.
- Agressividade defensiva: Qualquer questionamento sobre o jogo ou as finanças pode gerar uma reação agressiva ou muito defensiva. Brigas por dinheiro e conflitos familiares frequentes são comuns.
- “Correr atrás do prejuízo”: Uma característica clássica é a insistência em continuar jogando para tentar recuperar o dinheiro perdido. Isso, invariavelmente, leva a uma escalada nas apostas.
Sinais financeiros e digitais
O vício em jogos impacta diretamente o bolso e a relação com a tecnologia:
- Problemas financeiros: Começam a aparecer pedidos de empréstimos frequentes, uso excessivo de cartões, contas básicas atrasadas. Sabemos que 86% dos apostadores problemáticos acumulam dívidas e muitos acabam com o nome negativado, com casos dramáticos de venda de pertences ou busca por agiotas.
- Microtransações e apps de aposta: Gastos recorrentes em pequenas quantias em jogos online, muitas vezes de forma escondida, e a presença de múltiplos aplicativos de apostas ou carteiras digitais no celular.
- Uso escondido do celular: A pessoa passa muito tempo com o celular, mas esconde a tela ou o que está fazendo, principalmente em momentos em que deveria estar presente com a família ou em outras atividades.
Como funciona a mente de um viciado em apostas?
É muito comum que a pessoa jure que vai parar, mas depois de um tempo, retoma o jogo. Isso gera uma enorme frustração, mas não significa que ela não queira parar ou que esteja te enganando por maldade.
Na verdade, por trás dessa dificuldade, existe um mecanismo cerebral que torna as promessas difíceis de cumprir. A mente de quem desenvolve a ludopatia entra em um ciclo vicioso de recompensa e tomada de decisão que se desregula.
Sabemos que todas as dependências, incluindo o vício em jogos, alteram o sistema de recompensa do cérebro. Uma área-chave é o núcleo accumbens, conhecido como “área do prazer”.
Quando você aposta e ganha (ou quase ganha!), essa área é inundada por dopamina, o neurotransmissor que causa sensações de bem-estar e euforia.
As apostas exploram o que chamo de “montanha-russa” emocional: a recompensa variável, a expectativa constante e a impulsividade. Com o tempo, o cérebro desenvolve tolerância, exigindo estímulos cada vez maiores — apostas mais altas, riscos maiores — para sentir o mesmo prazer inicial.
Isso leva a um ciclo de ansiedade → aposta → alívio momentâneo → culpa. Estudos científicos têm mostrado que existem alterações no sistema dopaminérgico em jogadores com transtorno do jogo, incluindo um aumento na síntese de dopamina em certas regiões do cérebro, se comparado a pessoas que não têm o vício.
Recompensa variável e “quase ganho”
Uma das características mais cruéis do vício em jogos é que a recompensa é incerta e intermitente, ou seja, você não ganha sempre. E, por incrível que pareça, essa inconstância torna o vício mais forte. A imprevisibilidade alimenta a excitação do cérebro, que fica sempre ávido pela próxima possibilidade de recompensa.
Pense em exemplos: uma máquina caça-níquel que mostra três figuras quase iguais, o famoso “Jogo do Tigrinho” com seus símbolos coloridos, ou as odds (probabilidades) mudando em apostas esportivas.
Não é só o ganhar que vicia, é a expectativa de que a vitória está muito próxima. Para muitos, jogar, em si, é mais motivador do que ganhar. O que incentiva é a possibilidade de vencer.
Distorções cognitivas que viram armadilha
Na mente de quem joga, existem certos “atalhos” de pensamento que a prendem ainda mais:
- Ilusão de controle: Você acredita que pode influenciar o resultado do jogo, mesmo sabendo que é aleatório. Rituais, “assoprar os dados”, ou usar um “amuleto da sorte” são exemplos clássicos de ilusões de controle.
- “Tô perto”, “agora vai”: A sensação de “quase ganhar” é um reforço poderoso, mantendo você preso à esperança.
- Pensamento mágico (wishful thinking): Você acredita que vai “encontrar padrões” ou “estratégias infalíveis” para vencer a sorte, negando o caráter aleatório.
- “Só mais uma”: A incapacidade de parar depois de uma perda ou de um ganho, sempre na busca pela próxima rodada.
É essencial entender que, no momento do gatilho para jogar, tentar discutir com a pessoa usando a lógica é ineficaz, pois o impulso e o desejo pela dopamina falam mais alto que a razão.
E esse cenário só se agravou com a facilidade do jogo online.

Vício em jogos de aposta e bets: por que ficou tão fácil cair nisso?
Nos últimos tempos, temos observado uma “normalização” preocupante das apostas online. Basta navegar nas redes sociais para ver influenciadores digitais promovendo sites, grupos de WhatsApp bombardeando com “dicas quentes”, e bônus que parecem cair do céu. O que antes era uma atividade restrita, hoje está ao alcance de um clique, a qualquer hora do dia.
As plataformas de aposta online, conhecidas como “bets”, e jogos como o “Jogo do Tigrinho” (que, por sinal, é ilegal no Brasil, e sua promoção também configura crime) contribuíram enormemente para agravar o vício.
Essa combinação de “acesso ilimitado, altas doses de dopamina (pelo feedback imediato) e pouca regulação” cria um terreno fértil para a dependência.
O risco de desenvolver um vício aumenta exponencialmente com a acessibilidade (jogar a qualquer momento), a velocidade (apostas rápidas, resultados instantâneos) e o estímulo constante que as plataformas digitais oferecem.
Para você ter uma ideia, dados do Ministério da Fazenda mostram que 17,7 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas apenas no primeiro semestre de 2025. E essa é só a ponta do iceberg.
O que mudou com o digital:
A dinâmica do vício foi completamente transformada pelo digital. Para a família, é crucial ficar atenta a esses pontos:
- Acesso 24/7: A pessoa pode jogar a qualquer hora, em qualquer lugar, sem a necessidade de sair de casa. Apostar ficou a um clique de distância, 24 horas por dia, na palma da mão.
- Depósitos instantâneos e múltiplas carteiras: A facilidade de fazer depósitos via Pix e usar diversas carteiras digitais ou bancos online torna o controle financeiro quase impossível.
- Bônus e “missões”: As plataformas oferecem constantes incentivos (bônus de primeiro depósito, giros grátis, “missões diárias”) que prendem você ao jogo e incentivam gastos cada vez maiores.
- Consumo escondido: Toda essa facilidade permite que você jogue de forma secreta, dificultando a percepção e a intervenção da família.
Como conversar com alguém viciado em jogos de azar?
A pergunta “se eu falar, ele explode; se eu não falar, piora” é um reflexo do medo que paralisa muitas famílias. É uma situação cheia de nuances, onde o silêncio pode ser tão prejudicial quanto a abordagem errada.
Uma conversa eficaz não tem o objetivo de “convencer” a pessoa à força, mas sim de abrir uma porta para a ajuda, estabelecendo limites claros e oferecendo apoio. A ludopatia não afeta apenas o jogador; ela se espalha para a família e a rede próxima, impactando a todos.
A conversa mais eficaz combina fatos concretos + limites claros + um convite direto à ajuda, sempre com empatia e sem humilhar ou moralizar.
Tente usar esse roteiro:
- Abertura: “Estou muito preocupada com você. Tenho notado algumas coisas que me fazem acreditar que você não está bem.”
- Fato concreto: “Por exemplo, vi que o aluguel não foi pago este mês, ou que o extrato do seu banco mostra um gasto de X reais em apostas na última semana.” (Lembra das evidências que você organizou? Agora é hora de usá-las).
- Impacto na família: “Isso está nos afetando, a mim e às crianças. Estamos sem dinheiro para as despesas básicas, e nossa relação está muito abalada.”
- Limite claro: “Por isso, decidi que não vou mais cobrir suas dívidas de jogo, e seu acesso ao cartão da família será limitado.” (Essa é a parte difícil, mas crucial).
- Pedido de ajuda: “Mas eu quero te ajudar. Você aceitaria marcar uma consulta com um profissional, ou ir a um grupo de apoio essa semana? Eu posso ir com você.”
Como lidar com as 5 respostas mais comuns:
Prepare-se para diferentes reações. A chave é manter a calma e a firmeza nos limites, mas sem perder a empatia.
- Negação: “Não tenho problema nenhum! Você está exagerando!”
- Possível resposta: “Eu entendo que você não veja assim agora, mas os fatos que te mostrei me preocupam muito. Não estou te julgando, estou aqui para te ajudar a enxergar isso.”
- Raiva: “Não é da sua conta! Saia da minha vida!”
- Possível resposta: “É da minha conta porque eu me importo com você, e o problema está afetando a todos. Não vou discutir, mas meus limites estão colocados. Se precisar de ajuda, estarei aqui para apoiar.”
- Barganha: “Eu paro, juro! Só me ajude com essa dívida e nunca mais toco no assunto!”
- Possível resposta: “Não, eu não vou mais cobrir dívidas. A única forma de parar de verdade é buscando ajuda profissional. Estou disposta a te acompanhar nesse processo, mas não vou mais alimentar o jogo.”
- Vitimismo: “Ninguém me entende! Vocês me odeiam! Eu sou um fracasso!”
- Possível resposta: “Não te odiamos, e você não é um fracasso. Você está doente, e doenças precisam de tratamento. Queremos te ajudar a encontrar esse tratamento, e estou disposta a te dar a mão.”
- Silêncio: A pessoa se fecha e não responde.
- Possível resposta: “Vou te dar um espaço, mas saiba que essa porta para o tratamento continua aberta. Os limites financeiros, no entanto, se mantêm.”
Você provavelmente precisará repetir essa conversa e reforçar os limites diversas vezes. É um processo contínuo.
Mas, e se o jogador for seu filho? A abordagem muda um pouco, e o cuidado com a segurança digital se torna ainda mais vital.

Como ajudar um filho viciado em jogos de azar?
O choque de descobrir que um filho está viciado em jogos pode ser avassalador. Histórias de Pix transferidos em segredo, faturas de cartão de crédito estouradas e o celular escondido são, infelizmente, comuns.
Nesses casos, a minha orientação é que o foco deve ser na proteção, na manutenção do vínculo e no estabelecimento de limites claros, e não em uma punição cega que pode apenas afastar ainda mais.
Sabemos que homens jovens são a maioria entre os jogadores online frequentes. Isso ressalta a urgência de uma intervenção precoce.
Para filhos, a ajuda se torna uma mistura delicada de limites parentais firmes, barreiras digitais inteligentes e um cuidado emocional constante, sempre visando uma avaliação profissional.
Sinais específicos em jovens (escola, sono, irritação, isolamento)
Fique atenta a estes sinais que podem indicar o vício em jogos em jovens, que muitas vezes se confundem com a “fase da adolescência”:
- Queda no desempenho escolar: Notas que despencam, desinteresse nos estudos, faltas injustificadas. O desempenho acadêmico e profissional é comprometido.
- Inversão do sono: Troca o dia pela noite, passando a madrugada jogando e dormindo durante o dia, o que afeta diretamente a saúde e os estudos.
- Ansiedade e irritabilidade: Fica facilmente nervoso, impaciente ou agressivo sem um motivo aparente, principalmente quando questionado ou impedido de jogar.
- Mentiras sobre gastos: Esconde o uso do dinheiro, inventa histórias para justificar pedidos de valores ou mente sobre como gastou.
- “Emprestar conta” de terceiros: Pede para usar contas de amigos ou familiares para fazer apostas, tentando burlar bloqueios ou a falta de idade.
- Isolamento social: Afasta-se dos amigos e de atividades que antes gostava, preferindo ficar sozinho com os jogos.
Barreiras digitais e financeiras que os pais podem aplicar:
- Bloqueio de aplicativos e sites: Utilize ferramentas de controle parental para bloquear o acesso a plataformas de apostas no celular, computador e até em consoles de videogame.
- Restrição de pagamentos: Desative compras online nos cartões de crédito/débito vinculados ao jovem, ou estabeleça limites muito rígidos.
- Controle de cartões e contas: Monitore extratos e movimentações financeiras. Em casos mais graves, pode ser necessário limitar o acesso direto do jovem a dinheiro ou cartões.
- Limites em carteiras digitais: Verifique e controle o uso de Pix e outras carteiras digitais.
É importante fazer isso sem transformar a casa em um ambiente de vigilância constante. Explique o porquê dessas medidas, mostrando que elas são para o bem do seu filho e que você está agindo com amor e preocupação. Preserve a confiança sempre que possível, mas coloque os limites necessários.
Quando é urgência? Risco de suicídio, crises e violência financeira
É fundamental saber identificar quando o vício em jogos atinge um nível de urgência que exige uma intervenção imediata. Sinais como ameaças de sumir, frases como “não aguento mais a vida”, dívidas impagáveis que geram ameaças ou uma completa desorganização da vida não são “drama”; são protocolos de emergência que não podem ser ignorados.
Não hesite em buscar ajuda imediata se houver:
- Ideação suicida: Qualquer menção ou sinal de que a pessoa pensa em tirar a própria vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta evidências de um aumento importante do risco de suicídio em pessoas com transtorno do jogo.
- Agressividade e surtos: Comportamento violento ou descontrolado, colocando a si ou a outros em risco.
- Uso intenso de substâncias: Se o jogo está associado ao abuso de álcool ou outras drogas, o quadro se agrava consideravelmente, e o risco é maior.
- Dívidas com risco de violência: Quando as dívidas são com agiotas ou pessoas perigosas, a integridade física pode estar em risco.
- Incapacidade total de autocuidado: A pessoa não consegue mais se alimentar, cuidar da higiene ou manter qualquer rotina básica.
Nesses casos, a vida está em risco. Procure imediatamente um pronto-socorro, um serviço de emergência psiquiátrica ou ligue para os números de apoio especializados em saúde mental.
Uma pessoa viciada em jogos de azar pode ser internada?
A internação é uma medida clínica e legal, com regras muito específicas, e não é um castigo. Ela existe para proteger a pessoa e oferecer um tratamento intensivo quando outras abordagens não são suficientes.
Existem clínicas de reabilitação especializadas em adicções comportamentais e a rede pública de saúde mental (SUS) também oferece atendimento. Em casos graves, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) ou mesmo hospitais psiquiátricos podem acolher o jogador para estabilização.
Diferença entre internação voluntária, involuntária e compulsória:
- Internação voluntária: É quando a própria pessoa que tem o vício concorda e busca o tratamento. Ela assina um termo de consentimento. Essa é sempre a opção mais indicada, pois a adesão ao tratamento costuma ser maior.
- Internação involuntária: Ocorre quando a pessoa não consente, mas é internada por solicitação de um familiar ou responsável legal. Para isso, é necessária uma avaliação médica que ateste a necessidade e o risco à vida da pessoa ou de terceiros. A Lei 10.216/2001 exige que a comunicação ao Ministério Público seja feita em até 72 horas.
- Internação compulsória: É a internação determinada pela justiça. Acontece quando a situação é de risco extremo, comprovada por perícia médica, e nem a pessoa nem os familiares consentem.
O que costuma justificar uma avaliação mais intensiva:
- Risco de auto ou heteroagressão: Quando a pessoa representa um perigo claro para si mesma (pensamentos suicidas) ou para outras pessoas (agressividade descontrolada).
- Incapacidade grave de autocuidado: A pessoa não consegue se alimentar, cuidar da higiene ou se proteger minimamente, colocando sua vida em risco.
- Crise psiquiátrica com comorbidades: Um surto psicótico, depressão profunda ou ansiedade extrema, somados ao vício, que impeçam a pessoa de funcionar minimamente.
- Risco patrimonial grave: O vício está levando a família à ruína financeira total, e a pessoa não tem controle sobre suas ações.
Lembre-se, a internação é uma medida de exceção. Na maioria dos casos, o caminho para a recuperação se dá através do tratamento ambulatorial, com consultas regulares e uma boa rede de apoio.
A ludopatia tem cura?
Na ludopatia, assim como em outras dependências, nós falamos mais em recuperação e controle do que em uma “cura” definitiva. A boa notícia é que é totalmente possível melhorar muito, retomar as rédeas da vida e viver de forma saudável e plena. Isso, claro, exige método, paciência e um suporte contínuo.
Recaídas podem acontecer – e não devem ser tratadas como fracasso definitivo, mas sim como parte do processo de recuperação. Uma recaída não invalida todo o caminho percorrido; ela se torna uma oportunidade para ajustar a rota e fortalecer o tratamento.
O tratamento mais eficaz costuma ser uma combinação de psicoterapia estruturada, suporte familiar e o desenvolvimento de estratégias para lidar com os gatilhos. E sim, a avaliação psiquiátrica é muitas vezes essencial, pois há uma alta frequência de comorbidades psiquiátricas (como depressão, ansiedade, transtorno bipolar) em pessoas com transtorno do jogo. Um tratamento completo aborda todas essas questões.
O que costuma funcionar:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Essa terapia ajuda você a identificar e mudar os padrões de pensamento e comportamento que levam ao jogo. Ela ensina estratégias para evitar as recaídas.
- Entrevista Motivacional: Ajuda você a encontrar dentro de si a motivação para mudar e se engajar no tratamento.
- Grupos de apoio: Grupos como os Jogadores Anônimos (J.A.) oferecem um espaço seguro de compartilhamento de experiências e suporte mútuo, seguindo o modelo dos Alcoólicos Anônimos.
- Terapia familiar: Ajuda a família a se comunicar de forma mais saudável e a lidar com o impacto do vício, encontrando maneiras eficazes de apoiar a recuperação.
- Medicação: Pode ser indicada em alguns casos, especialmente para tratar condições associadas como depressão ou ansiedade, ajudando a estabilizar o humor e reduzir a impulsividade.
Se a pessoa disser “quero parar”:
Se você, ou a pessoa com quem se importa, finalmente disser “quero parar”, considere isso uma vitória imensa! É o momento de agir rápido e com um mini-plano para iniciar o processo de como parar de jogar jogos de azar:
- Pausa imediata: Incentive uma pausa total dos jogos por um período curto e definido (um dia, uma semana).
- Bloqueio de acesso: Ajude a bloquear sites e aplicativos de apostas em todos os dispositivos, como celulares e computadores.
- Contar a alguém: Peça para você compartilhar essa decisão com uma pessoa de confiança, para ter mais apoio e responsabilidade.
- Consulta agendada: Agende imediatamente uma consulta com um profissional de saúde mental ou com um grupo de apoio.
- Novas rotinas: Ajude você a preencher o tempo que antes era dedicado ao jogo com novas atividades ou responsabilidades saudáveis.
O tratamento é o caminho mais seguro. Mas, enquanto isso, como lidar com o dinheiro?
Limites, dinheiro e proteção: como ajudar sem financiar o vício
O dinheiro é, talvez, o ponto mais sensível de toda essa jornada. É onde, na minha experiência, tudo explode na vida de quem está viciado em jogos. Mas é fundamental que você saiba que colocar limites é um ato de cuidado, não de castigo. É uma forma de proteger quem você ama e também a sua família da ruína financeira.
O apoio mais eficaz passa por cortar o “combustível” do vício. Isso significa não pagar dívidas de jogo, organizar as contas da casa para que o dinheiro não seja desviado, e impedir o acesso fácil a crédito, protegendo assim o patrimônio familiar.
Um levantamento repercutido pela Agência Brasil aponta um alto índice de endividamento entre apostadores, incluindo registros de negativação. É importante que a pessoa com vício sinta as consequências financeiras para perceber a gravidade do problema.
6 limites financeiros que reduzem danos:
- Separar contas bancárias: Se possível, tenha contas separadas para as despesas da casa, com acesso restrito para a pessoa com vício.
- Bloquear cartões: Entre em contato com os bancos para bloquear cartões de crédito ou débito que a pessoa possa usar para apostar.
- Reduzir limites de crédito: Diminua o limite de crédito em todos os cartões e linhas de crédito.
- Desativar crédito fácil: Desabilite opções de crédito rápido e fácil (como cheque especial, empréstimos pré-aprovados) nos bancos.
- Transparência de extratos: Se houver um acordo, peça que os extratos bancários e de cartão sejam compartilhados regularmente, como forma de monitoramento e auxílio.
- Orientar renegociação: Ajude a pessoa a renegociar dívidas com responsabilidade, buscando apoio jurídico ou financeiro especializado, sem que a família assuma o ônus total.
Como identificar manipulações e pedidos de dinheiro “urgentes”
A pessoa com vício pode, sem querer, tornar-se muito manipuladora em busca de dinheiro para jogar. Fique atenta a padrões como:
- Promessas de que é a última vez: “Só me ajude com essa dívida e nunca mais jogo!” ou “Juro que paro se você me der essa chance”.
- Histórias dramáticas e urgentes: Criação de narrativas com prazos apertados e consequências graves para justificar o pedido de dinheiro.
- Pressão constante: Não aceita um “não” e insiste exaustivamente, criando um ambiente de estresse.
Minha recomendação é responder sempre com firmeza e sem ceder: o apoio será para o tratamento, e não para financiar o jogo.
Como encontrar apoio psiquiátrico para lidar com o vício em jogos de azar?
Você não precisa (e nem deve) resolver isso sozinho. O vício em jogos não é um debate moral, mas um problema de saúde que exige cuidado. A combinação de limites claros e ajuda especializada é o que de fato reduz os danos e abre o caminho para a recuperação.
Com uma avaliação clínica, um plano de tratamento e limites saudáveis, é totalmente possível interromper a escalada do vício e reconstruir a segurança e a qualidade de vida.
Sabemos que a ludopatia tem tratamento e muitas pessoas conseguem retomar as rédeas da vida com o suporte adequado. Lidar com a ludopatia é desafiador, mas você pode ter apoio.
Ofereço consultas psiquiátricas em Curitiba e também realizo atendimentos remotos, para que você possa ter acesso ao suporte necessário de onde estiver.
Entre em contato e marque seu horário. Juntos, podemos encontrar o melhor caminho para ajudar quem você ama a sair da situação do vício em jogos de azar.
Book a Consultation







